Moradores do Rio de Janeiro precisam aprender a conviver com eventos climáticos extremos, como chuvas fortes e ventanias, que estão cada vez mais comuns. Especialistas afirmam que a prevenção é a melhor forma de se proteger e que os alertas da Defesa Civil devem ser levados a sério com naturalidade.
Ontem, pouco mais de uma semana após a forte ventania que provocou mortes e destruição na cidade, três alertas dos órgãos de Defesa Civil da prefeitura e do estado, dois deles disparados pouco depois das 5h, chamaram a atenção da população para a chegada iminente de chuva e vento forte ao Rio. O último aviso, também enviado por celular, veio na forma de um ruidoso alarme sonoro. Na véspera, à noite, já havia sido anunciada a suspensão das aulas em escolas públicas. Depois dos alertas e diante de medições que confirmavam a mudança do tempo, ainda foi decretado ponto facultativo para servidores públicos. Profissionais do setor privado foram orientados a voltar mais cedo para casa. Esse é o novo normal: especialistas em meio ambiente e meteorologistas frisam que a palavra de ordem é mesmo "prevenção".
- Ventos de mais de 84 km/h atingiram a Costa Verde, elevando o estágio de atenção para níveis 2 e 3.
- No Japão, país acostumado a desastres naturais, a população já sabe como agir em alertas de nível 3.
- O Rio foi a primeira cidade a ter um protocolo de calor, em 2023, seguido pelo estado.
- A prefeitura estuda criar um novo sistema para medir ventos extremos com mais rapidez.
- Especialistas recomendam que a população participe de treinamentos para saber como agir em emergências.
Esses protocolos devem ser encarados com naturalidade pela população, sobretudo em épocas de mudanças climáticas, quando eventos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes. Moradores de todo o estado atravessam um período de adaptação rumo à conscientização que já é comum em outros lugares do mundo. Ontem, o Rio galgou os níveis 2 e 3 do estágio de atenção depois de ventos de mais de 84km/h atingirem a Costa Verde. Para efeito de comparação, no Japão, país suscetível a terremotos, ventos fortes e outros fenômenos do clima, quando alertas de nível 3 de gravidade são emitidos, a população com baixa mobilidade e os idosos prontamente se dirigem a pontos de apoio.
Renata Libonati, coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da UFRJ, e integrante do grupo de trabalho vinculado ao Ministério do Meio Ambiente para acompanhar os impactos do El Niño no país, celebra melhorias na gestão dos riscos.
"No Rio, nos desenvolvemos bastante em termos de protocolos. Desde 2023, a cidade tem o protocolo de calor (do COR, o Centro de Operações e Resiliência, da prefeitura). Foi o primeiro município a ter, e depois o primeiro estado. Para ventos fortes, há alertas, como vimos, mas talvez a população ainda não esteja acostumada, como já está com as sirenes de chuvas, por exemplo", diz a especialista.
Novo sistema de controle
Ao EXTRA, a prefeitura adiantou que estuda a criação de um novo sistema de controle, criado pelo próprio COR, para maior agilidade na medição de ventos extremos, além de um novo protocolo de prevenção.
"Sempre é preciso aprimorar nossos protocolos para adaptá-los a essa nova realidade climática. O objetivo é manter o Rio na liderança das cidades resilientes", afirma o prefeito Eduardo Cavaliere.
O sistema que já está sendo testado prevê o "cruzamento de informações de variados órgãos e estações meteorológicas para um maior controle da direção e da velocidade dos ventos extremos", além da criação de um "cinturão de controle" das rajadas no entorno da cidade, informa a prefeitura.
A atenção ao planejamento do setor elétrico e às regras de urbanismo também é urgente. Marcelo Enrique Seluchi, meteorologista e coordenador de operações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), diz que não só o Sudeste, mas outras regiões brasileiras precisam se antecipar aos desastres.
"Seria interessante, ainda que não simples, analisar os padrões de construção, já que ocorrências de destelhamentos são muito comuns, verificar as árvores que apresentam algum tipo de problema e podem cair e fazer o mesmo com os postes. Isso não só no Rio, mas pelo menos na metade sul do país", afirma Seluchi.
Na Colômbia, país vizinho, no primeiro trimestre deste ano foram registradas 600 emergências associadas a chuvas em 328 cidades. Episódios de ventania foram mais de 70. Por lá, os protocolos da Unidad Nacional para Gestão do Risco de Desastres (UNGRD) sugerem medidas para antes, durante e depois dos fenômenos. Na Guatemala, na América Central, há campanhas de conscientização para a população que incluem adaptações estruturais, como a fixação firme de telhas e telhados, e instruções básicas, como a de evitar tocar ou se aproximar de cabos de energia elétrica.
"As pessoas precisam entender que protocolo é como um seguro: você contrata pretendendo não usar. Além de compreender, as pessoas precisam participar de treinamentos", frisa Seluchi.
O protocolo de calor da prefeitura do Rio e o plano de contingência da prefeitura de Petrópolis para chuvas intensas, ambos desenvolvidos e lançados entre 2022 e 2023 após tragédias nas duas cidades, viraram referência. No mesmo período, um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), criado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estabeleceu urgência para as adaptações por conta do clima.
Suzana Kahn, diretora da Coppe/UFRJ e ex-integrante do IPCC, conta que décadas atrás medidas já eram descritas:
"Entre as ações que o IPCC destaca estão o sistema de alerta precoce, o plano de emergência e evacuação, o fortalecimento de edificações e da infraestrutura das cidades, e manejo e arborização urbana, para reduzir a queda de árvores", exemplifica ela.
A conexão entre tecnologia, governos, ciência e sociedade é o caminho indicado por Renata Libonati.
"Num sistema de gestão de risco existem quatro pilares: o conhecimento do evento, das causas e dos impactos; o sistema de previsão e monitoramento; a emissão dos alertas; e a compreensão desses avisos. O principal desafio de qualquer gestão de risco é fazer as pontes de conexão entre pilares", diz.


Após alertas, o cruzamento das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco estava vazio perto das 16h Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo


