14 de agosto de 2026

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Violência contra indígenas cresce no Brasil em 2025

Cidades Violência 14/08/2026 05:23 Assessoria de Comunicação do Cimi

Relatório do Cimi mostra aumento de conflitos por terra, assassinatos e suicídios entre indígenas, em meio a disputas judiciais e pressão política contra a demarcação de terras.

Em 2025, os direitos territoriais dos povos indígenas estiveram sob ataque. Medidas legislativas e decisões judiciais contrárias aos direitos constitucionais somaram-se à vigência da Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal.

O relatório 'Violência contra os Povos Indígenas no Brasil dados de 2025', do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra que esse contexto de insegurança resultou em ataques contra povos em luta pela terra, na vulnerabilidade de povos desterritorializados e na continuidade das invasões a terras indígenas em todo o país.

  • Em 2025, registraram-se 258 assassinatos de indígenas, um aumento em relação aos 211 do ano anterior.
  • Os conflitos por direitos territoriais chegaram a 169 casos em 23 estados, atingindo 143 terras indígenas.
  • Foram 215 suicídios de indígenas em 2025, superando os 208 de 2024, com maior incidência entre jovens de 20 a 29 anos.
  • A TI Sararé, em Mato Grosso, segue entre as mais devastadas pelo garimpo ilegal, com desmatamento e poluição de rios.
  • O Senado aprovou a PEC 48/2023, que tenta incluir o marco temporal na Constituição, apesar de já ter sido declarado inconstitucional pelo STF em 2023.

Em 2025, foram registrados aumentos nos três tipos de violência sistematizados na publicação: violência contra a pessoa, contra o patrimônio e por omissão do poder público, com crescimento, entre outras categorias, dos conflitos relativos a direitos territoriais, assassinatos, suicídios e mortalidade infantil.

Casos de violência e luta por terra

Nos primeiros dias de 2025, quatro indígenas do povo Avá-Guarani foram baleados durante um ataque armado contra uma comunidade na Terra Indígena (TI) Tekoha Guasu Guavirá, área em processo de demarcação e sob intensos conflitos no oeste do Paraná. Um dos indígenas, atingido na coluna, perdeu os movimentos das pernas. Em março, o Pataxó Vitor Braz foi assassinado na TI Barra Velha do Monte Pascoal, no extremo sul da Bahia. Em novembro, o Guarani Kaiowá Vicente Fernandes foi assassinado no Tekoha Pyelito Kue, na TI Iguatemipegua I, em Mato Grosso do Sul.

Os três casos ocorreram em terras oficialmente delimitadas, mas com processos demarcatórios que se arrastam por mais de uma década, em meio a uma longa espera por atos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Invasões e exploração ilegal

Enquanto os povos indígenas em luta pela terra sofrem com a violência, em terras demarcadas as ações de invasores não cessaram, apesar de operações de desintrusão do governo federal. O caso da TI Sararé, em Mato Grosso, é simbólico da incapacidade do Estado em manter os invasores fora das terras indígenas. A situação da terra do povo Nambikwara mostra os efeitos graves do garimpo, que transforma florestas e rios em desertos de lama, desestrutura comunidades e amplia a exposição a doenças e drogas.

Em 1996, o relatório do Cimi já trazia na capa uma enorme cratera aberta por garimpeiros na terra dos Nambikwara. Três décadas depois, a TI Sararé retorna à capa com nova intensificação do garimpo, evidenciando a persistência histórica da exploração ilegal.

Impasse jurídico e pressão política

Não é possível desvincular as violências registradas em 2025 dos ataques aos direitos territoriais e do impasse no Poder Judiciário em torno da Lei 14.701. Em maio, o Senado aprovou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 717/2024, que susta decretos de homologação de duas terras indígenas e parte do Decreto 1775/1996. No STF, os pedidos para analisar as inconstitucionalidades da lei permaneceram sem julgamento até dezembro.

Em dezembro, o Senado aprovou, em dois turnos, a PEC 48/2023, que busca incluir o marco temporal na Constituição, tese já declarada inconstitucional pelo STF em 2023. O relator das ações sobre a Lei 14.701, ministro Gilmar Mendes, apresentou voto mantendo dispositivos graves da norma e propondo outros problemáticos, dificultando a posse dos povos indígenas sobre suas terras.

Violência contra o patrimônio

As violências contra o patrimônio dos povos indígenas totalizaram 1.276 casos em 2025: 897 relacionados à omissão e morosidade na regularização de terras, 169 a conflitos por direitos territoriais e 210 a invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos ao patrimônio. Das 1.443 terras e reivindicações territoriais existentes no Brasil, 897 estão pendentes de alguma medida administrativa para sua regularização.

Em 2025, nove terras tiveram seus relatórios de identificação publicados, dez portarias declaratórias foram emitidas, sete terras foram homologadas e cinco foram registradas. São avanços, mas ainda muito aquém da demanda territorial, mantendo o terceiro mandato de Lula com a menor média de homologação de terras entre seus governos.

Os 210 casos de invasão possessória atingiram ao menos 151 terras indígenas em 20 estados. Muitas dessas terras passaram recentemente por operações de desintrusão, mas os invasores retornaram logo após as operações. Foi o caso dos Parakanã da TI Apyterewa, no Pará, e da TI Karipuna, em Rondônia.

Além do garimpo e da mineração, foram registradas invasões por madeireiros, grileiros, caçadores e pescadores. Ao menos 46 territórios registraram danos a cursos d'água por drenagem de rios para irrigação, garimpo e contaminação por agrotóxicos. As TIs Guyraroka, em Mato Grosso do Sul, e Lago do Soares, no Amazonas, figuram nas três categorias de violência contra o patrimônio.

Violência contra a pessoa

Foram registrados 258 assassinatos de indígenas em 2025, número maior que os 211 de 2024. Os estados com mais casos foram Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37). Também foram registrados 46 casos de racismo e discriminação étnico-cultural, 38 tentativas de assassinato, 33 lesões corporais e 25 violências sexuais.

Um caso cruel foi o de um adolescente indígena que teve a pele marcada com ferro de identificar gado enquanto trabalhava para um pecuarista na Ilha do Bananal (TO), a segunda ocorrência do tipo em menos de um ano, simbolizando o racismo enraizado contra os povos originários.

Violência por omissão do poder público

Foram registrados 215 suicídios de indígenas em 2025, superando os 208 de 2024. Os estados com mais casos foram Amazonas (77), Mato Grosso do Sul (42) e Roraima (37). Os suicídios se concentraram entre jovens, com maior incidência entre 20 e 29 anos (41%) e até 19 anos (34%).

Dados de mortalidade infantil indicam 1.024 óbitos de bebês e crianças indígenas até 4 anos, aumento em relação aos 922 de 2024. A maioria das mortes (57%) decorreu de causas evitáveis, como gripe e pneumonia (104), doenças infecciosas intestinais (85) e desnutrição (32).

Foram registrados 111 casos de desassistência na educação e 121 na saúde. A falta de água potável e saneamento básico agrava as condições de saúde, muitas vezes com poluição de rios por agrotóxicos ou mercúrio de garimpos. No Rio Grande do Sul, a desassistência atinge especialmente indígenas acampados à beira de estradas.

A educação indígena ganhou visibilidade com a mobilização dos povos indígenas do Pará contra o desmonte do sistema de ensino. Em todo o país, faltam investimentos, escolas, merenda e material didático. Há ainda relatos de falta de acesso à educação específica e à saúde indígena, especialmente entre indígenas em contexto urbano.

Povos isolados

Sobre os povos indígenas em isolamento voluntário, a Equipe de Apoio aos Povos Livres (Eapil) do Cimi lista 119 registros no Brasil, dos quais apenas 55 são confirmados pela Funai. Foram registrados casos de invasão e dano ao patrimônio em 20 terras indígenas com presença de 45 registros de povos isolados. Aqueles sem reconhecimento oficial enfrentam risco ainda maior diante da expansão de atividades econômicas sobre florestas que habitam.

Memória e análises

O capítulo de memória traz o relato do jornalista Rubens Valente sobre a cobertura do garimpo na TI Sararé em 1996, quando produziu reportagens sobre uma operação de desintrusão. Em seu texto, ele traça um paralelo entre os dois momentos históricos de exploração ilegal da terra Nambikwara.

Os artigos complementares abordam o racismo contra povos indígenas, os desafios de indígenas encarcerados, a luta dos povos indígenas do Piauí por reconhecimento étnico e territorial e a análise da política indigenista no Brasil.

A plataforma Caci (Cartografia de Ataques Contra Indígenas), que significa 'dor' em guarani, foi atualizada com os dados do relatório de 2025 e pode ser acessada em caci.cimi.org.br.