21 de agosto de 2026

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Jovens brasileiros enfrentam grandes diferenças no mercado de trabalho

Economia Trabalho 21/08/2026 15:23 Alana Gandra - Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Uma pesquisa recente mostra que a formalização do trabalho entre jovens de 16 a 29 anos é desigual no Brasil. Jovens do Sul e Sudeste têm mais empregos com carteira assinada, enquanto no Norte e Nordeste há mais informalidade e dependência de 'bicos'. A falta de experiência e a necessidade de indicações também são desafios.

A formalização no mercado de trabalho entre os jovens brasileiros de 16 a 29 anos é marcada por desigualdades, segundo a pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, feita pela Fundação Itaú com o apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva.

  • Só 44% dos jovens que trabalham têm carteira assinada.
  • No Sul, 58% dos jovens têm emprego formal; no Nordeste, apenas 20%.
  • Jovens negros têm menos emprego com carteira (41%) do que brancos (49%).
  • 77% dos jovens conseguiram o emprego atual por indicação de alguém.
  • Para 62%, um ambiente de trabalho saudável vale mais que um salário maior.

A pesquisa foi divulgada nesta sexta-feira (21) durante o evento Trampos do Futuro, no Pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Foram ouvidos 1.816 jovens de todo o país entre os dias 11 e 23 de maio.

Entre os 70% que disseram estar trabalhando, 44% têm carteira assinada. Há ainda 15% de assalariados sem registro formal, 13% de autônomos e freelancers, 10% em trabalhos informais e 8% como estagiários e aprendizes remunerados.

Desigualdades sociais, regionais e raciais

Os jovens das classes A/B correspondem a 43% dos que trabalham em empregos formais, enquanto os das classes D/E são 35%. Por outro lado, 21% dos jovens das classes D/E trabalham sem registro, percentual que é de 13% nas classes A/B.

A formalização é mais frequente entre os jovens do Sul (58%) e do Sudeste (55%) do que no Norte (29%) e no Nordeste (20%). Quando é observada a raça, há 49% de jovens brancos com emprego formal. Entre os negros, são 41%.

Já o percentual de jovens negros que dependem de bicos informais é de 12%, enquanto o de brancos é de 5%. Trabalhar em bicos é a realidade de 34% dos jovens de 16 a 29 anos que estudaram até o ensino fundamental. Entre os que têm nível superior, só 3% têm esse tipo de ocupação.

Dificuldades para conseguir um emprego

Quase metade (49%) dos entrevistados disseram que a falta de experiência é a principal dificuldade para conseguir um emprego, seguida da quantidade de pessoas que disputam uma mesma vaga (39%). Para 96% dos jovens, conhecer alguém em uma empresa ou ser indicado por familiares ou amigos ajuda a conseguir um emprego atualmente.

Essa percepção é confirmada pelo fato de que 77% afirmaram ter conseguido seu emprego atual por meio de uma indicação. Entre os mais velhos (25 a 29 anos), o índice sobe para 81%. A indicação para o trabalho é considerada decisiva para 32% da classe A/B e para 16% para a D/E.

Planos para o futuro

A pesquisa revela que 30% dos jovens brasileiros consideram que um emprego com carteira assinada é o que eles querem atualmente. Contudo, em uma avaliação para os próximos cinco anos, esse percentual cai para 16%, enquanto a preferência por um trabalho autônomo cresce de 28% para 42%.

A gerente do Observatório da Fundação Itaú, Carla Chiamareli, avalia que a mudança faz parte do processo de amadurecimento. "O jovem entende que tem que começar a vida profissional com estabilidade para adquirir experiência e, depois, ele pode escolher estar dentro de uma empresa ou não", disse à Agência Brasil.

O interesse pelo trabalho por conta própria nos próximos cinco anos é mais elevado entre jovens com filhos (50%), residentes nas regiões Sul (49%) e Centro-Oeste (48%) e no interior (45%), além dos jovens brancos (45%). Já o desejo por um emprego com carteira assinada é relativamente mais frequente entre pessoas das classes D/E (23%), jovens com ensino fundamental (22%) e juventudes negras (18%).

Para 91% dos jovens brasileiros, sua situação financeira estará melhor daqui a cinco anos. Outros 88% confiam que terão uma condição financeira melhor que a dos pais e concordam que hoje é preciso estudar mais para conseguir um bom trabalho. Entre as áreas em que os jovens gostariam de trabalhar futuramente, a saúde aparece em primeiro lugar, com 25%. Em seguida, vêm tecnologia (22%), comércio e trabalho administrativo (19% cada), educação (16%), beleza e estética (14%) e comunicação e redes sociais (13%).

Prioridades

O salário é apontado por 64% dos jovens como o fator prioritário na escolha de um trabalho, seguido por benefícios, plano de carreira e ambiente de trabalho agradável (31% cada). Ao mesmo tempo, 62% dos jovens afirmaram que aceitariam ganhar um pouco menos para trabalhar em um ambiente mais saudável, com menos pressão e estresse.

Entre os jovens que trabalham ou já trabalharam, 69% já saíram de um emprego por vontade própria. Entre os principais motivos para essa decisão, 43% citaram falta de respeito ou tratamento inadequado de líderes ou chefes. Outras razões foram jornadas longas ou acúmulo de funções (36%); excesso de cobrança ou pressão por resultados (32%); falta de oportunidade de crescimento ou de plano de carreira (28%); e dificuldade de conciliar trabalho e estudo (16%).

Estudo e trabalho

De acordo com o levantamento, 48% dos jovens ouvidos estudam, 32% conciliam trabalho e estudo, 39% apenas trabalham e 13% não estudam nem trabalham. Metade (50%) dos entrevistados afirmaram ser responsáveis por cuidar da casa, além de trabalhar ou estudar.

Essas atribuições domésticas são mais acumuladas pelas mulheres (60%) do que pelos homens (40%). O mesmo acontece com relação ao cuidado com idosos, crianças e outras pessoas, desempenhado por 28% das mulheres e 14% dos homens.

Entre os jovens que estudam, foi constatado que 41% cursam educação superior, 27% estão no ensino médio, 18% fazem cursos livres e 11% cursam o ensino técnico. O diploma de curso superior é considerado importante para conquistar trabalho por 85% dos jovens. Mas, para 91% dos entrevistados, cursos técnicos e profissionalizantes constituem um caminho mais rápido e eficiente para obter emprego.

Competências socioemocionais

Carla Chiamareli acredita que, em toda a trajetória educacional, falta preparar o jovem para saber como se configura e se organiza o mundo do trabalho. "Hoje, a educação está muito focada em desenvolver competências de matérias como português e matemática, que são essenciais, mas acaba investindo pouco nas competências socioemocionais", comentou.

Ela considera que a escola deve ensinar resiliência, capacidade de se frustrar e adaptabilidade, que "são competências que a gente aprende com a vida mas que têm também de estar dentro do currículo".

Medo da inteligência artificial

Nove em cada dez jovens acreditam que a inteligência artificial (IA) vai eliminar muitas vagas de trabalho e 50% têm medo de perder espaço por conta dos avanços tecnológicos. O temor é mais frequente entre jovens com ensino fundamental (62%), integrantes das classes D/E (63%), pessoas com filhos (57%) e mulheres (55%).

Carla Chiamareli concordou que a IA vai substituir funções básicas, mas destacou que muitos jovens declararam ter esperança de que, mesmo com as substituições, ainda há espaço para oportunidades de trabalho. Praticamente todos (97%) declararam que usam a IA e a internet para aprender e crescer profissionalmente.

Mais oportunidades

Na avaliação de Carla Chiamareli, a pesquisa traz um convite para as empresas começarem a repensar suas estruturas e abraçarem os jovens brasileiros. Ela lembrou que o Brasil tem a Lei de Aprendizagem Profissional nº 10.097/2000, que exige que empresas de médio e grande porte contratem jovens de 14 a 24 anos como aprendizes.

Apesar disso, ela destacou que existe uma margem de 40% de empresas que poderiam ter jovens em seus quadros, especialmente de renda mais baixa. "Eu vejo que esses dados trazem uma janela de oportunidade muito boa para as empresas pensarem políticas intersetoriais entre educação e trabalho", disse.