Dados da Farsul mostram queda no financiamento rural no Brasil, com destaque para o Rio Grande do Sul, onde a falta de recursos pode impactar a produção, o PIB e o preço dos alimentos.
A área de terras financiada para o custeio agrícola no Brasil sofreu uma redução acentuada de 25,8% nos últimos 12 meses, conforme apontado por levantamento da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). os dados são baseados em informações do Banco Central até julho deste ano.
Esse é o primeiro ponto do alerta: a quantidade de hectares contemplados pelos recursos do Plano Safra diminuiu drasticamente. No período anterior, eram 34,2 milhões de hectares financiados. Um ano depois, esse número caiu para apenas 25,4 milhões de hectares.
Para entender melhor a situação do crédito rural no Brasil, veja os principais pontos:
- A área financiada caiu 25,8% no Brasil em 12 meses.
- No Rio Grande do Sul, essa queda foi ainda maior, 29,3%.
- Os juros altos e a crise dos empréstimos em atraso são as principais causas.
- A safra de 2026/2027 corre risco de ter menos produtos.
- Precos dos alimentos podem subir se a produção cair.
A queda nos valores e na quantidade de contratos
Não foi apenas a área que diminuiu. O dinheiro realmente repassado para os produtores também reduziu. O valor total liberado nos empréstimos de custeio caiu 12%, saindo de R$ 205,8 bilhões para R$ 181,1 bilhões.
Além disso, o número de contratos fechados diminuiu 10,3%. Onde antes haviam 867.035 acordos, agora há 777.849. A Farsul destaca que os próximos meses serão cruciais para ver como essa retração afeta a produção da safra 2026/2027, além do Produto Interno Bruto (PIB) e da balança comercial do país.
A entidade explica que, na prática, o crédito está alcançando menos terra, mas o valor pago por cada hectare está mais alto. Isso acontece porque o custo de produção e o custo do dinheiro (juros) subiram. O crédito concedido está cobrindo menos hectares a um custo maior por hectare, reflexo direto do encarecimento do dinheiro, afirmou a federação.
A situação não é igual para todas as plantas. As culturas mais importantes do país, como soja, milho e bovinos, que juntas representam quase 88% da área financiada, tiveram quedas de 25,8%, 27,4% e 25,5%, respectivamente.
Risco maior no Rio Grande do Sul
No estado que abriga a Farsul, o Rio Grande do Sul, os agricultores dependem mais do crédito do que a média nacional. Por isso, sofrem mais com a falta de recursos. A área financiada no estado caiu 29,3%, quase 30%, enquanto a média do Brasil foi de 25,8%.
O dinheiro liberado no estado caiu 18,3%, chegando a R$ 23,1 bilhões. O número de contratos também despencou 16,4%, ficando em 189.655. A soja, que responde por quase metade da área financiada no RS, teve uma queda de 35,2%. O trigo recuou 52% e o arroz, 32,2%.
Esse cenário é preocupante porque essas três culturas são vitais para a economia gaúcha e estão perdendo financiamento ao mesmo tempo. Outro sinal de alarme é o alto nível de dívidas em atraso. No estado, 41,3% da carteira de crédito rural está atrasada, renegociada ou prorrogada. No Brasil, esse número é 23,5%.
Dois anos atrás, em julho de 2024, esses números eram bem menores: 28,6% no RS e 11,8% no país. Parte desse aumento de dívidas vem das enchentes de 2024, que dificultaram o pagamento dos produtores. Dos R$ 45 bilhões em problemas no estado, mais da metade está em renegociação.
Juros altos e regras novas do Banco Central
A Farsul aponta três motivos principais para essa crise de crédito no RS e no Brasil: os altos juros, com a taxa Selic em 14% ao ano, o aumento das dívidas em atraso e as novas regras de segurança dos bancos.
Atualmente, os juros para custeio chegam a 14% ao ano e para investimento, superam 13%. Como o governo paga mais para conseguir dinheiro, tem menos espaço para dar descontos nos juros para os agricultores. Isso deixa o empréstimo ainda mais caro para quem planta.
Além disso, quem teve atrasos recentes enfrenta um olhar mais duro dos bancos. Isso se deve a uma nova regra (Resolução CMN 4.966/2021), que entrou em vigor em janeiro de 2025. Essa norma obriga os bancos a se prepararem para perdas mais cedo, analisando o risco de forma mais conservadora.
A norma não trata especificamente de crédito rural. Mas seu efeito prático recai com mais força justamente sobre carteiras que já mostram sinais de deterioração, e é exatamente esse o quadro do crédito rural, explicou a entidade. Com isso, os bancos evitam renovar ou conceder novos empréstimos a quem já deu sinais de dificuldade.
Outras fontes de dinheiro não resolvem tudo
Muitos produtores têm procurado o mercado de capitais para financiar a agricultura, usando instrumentos como as CPRs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). O estoque desse papel chegou a R$ 576,4 bilhões, um crescimento de 12% em um ano.
As CPRs já são a maior fonte de crédito rural, até mesmo dentro do Plano Safra. Outras formas, como LCAs e CRAs, também existem, mas em valores menores. No entanto, a Farsul alerta que essa alternativa não substitui o banco tradicional.
Na verdade, a emissão de CPRs já começou a desacelerar na atual safra. Além disso, essas ferramentas exigem uma grande escala e acesso a investidores ricos, o que ajuda apenas as grandes fazendas e agroindústrias. Para o produtor de menor porte, historicamente mais dependente do crédito bancário e do Plano Safra, essa válvula de escape é bem mais estreita, concluiu a federação.
O alerta final é para a economia como um todo. A agropecuária ainda cresce e ajuda o PIB e as exportações, mas isso é fruto de investimentos feitos há tempo. Se o crédito continuar escasso, a produção futura cai, o que pode afetar o PIB, a entrada de dólares no país e, principalmente, o preço dos alimentos, fazendo a inflação subir novamente.




