21 de outubro de 2026

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No campo, os sustos duram o ano inteiro

Economia Agro 21/10/2026 11:17 Miguel Daoud (Canal Rural) canalrural.com.br

O agricultor brasileiro enfrenta constantes ameaças como clima imprevisível, seguro insuficiente e crédito caro. Este artigo explica como esses problemas se conectam e o que pode ser feito para proteger a produção e a renda no campo.

O Dia das Bruxas é comemorado em 31 de outubro. Mas para o agricultor brasileiro, os sustos acontecem o ano inteiro, sem dia marcado. Eles podem aparecer no clima, no preço dos financiamentos ou quando uma dívida vence depois de uma colheita ruim.

Curiosamente, essa festa tem origem ligada à agricultura. Uma de suas raízes é o Samhain, uma celebração dos povos celtas que marcava o fim da colheita e o começo do inverno no Hemisfério Norte.

  • O seguro rural é essencial, mas difícil de obter e caro.
  • O crédito para plantar é caro e compromete boa parte da renda futura.
  • O clima imprevisível, como secas e enchentes, ameaça a produção.
  • A inadimplência pode ser resultado de quebra de safra, não de irresponsabilidade.
  • Uma política agrícola mais justa pode reduzir todos esses riscos.

Naquela época, acreditava-se que os espíritos se aproximavam dos vivos. Por isso, as pessoas faziam fogueiras e usavam fantasias para afastá-los.

Com o passar dos séculos, essas tradições se misturaram ao calendário cristão. O nome Halloween vem de uma expressão em inglês que significa "véspera de Todos os Santos", celebrado em 1º de novembro. A festa ganhou novas formas e ficou popular com fantasias, doces e abóboras.

A ligação com o campo ficou no passado. No entanto, o medo do que pode acontecer ainda é muito forte na vida de quem planta.

A primeira assombração vem do céu

O agricultor prepara a terra, escolhe a semente, investe em tecnologia e cuida da lavoura. Mesmo assim, uma seca fora de hora, uma enchente ou uma geada podem destruir meses de trabalho.

A tecnologia e o manejo ajudam a reduzir os riscos, mas não permitem controlar o tempo. Por isso, o seguro rural é fundamental para a produção. Dependendo da cobertura, ele pode ajudar a cobrir as perdas e manter as condições para a próxima safra.

O problema é conseguir um seguro barato e que dure por muito tempo. A dificuldade em ampliar a cobertura e a incerteza sobre o dinheiro público que ajuda a pagar as apólices deixam o planejamento do produtor vulnerável.

Em outubro, o próprio ministro da Agricultura reconheceu que a liberação de recursos bloqueados para essa finalidade ainda estava pendente.

O que me preocupa é a combinação: o agricultor pega um empréstimo para plantar e pode chegar na colheita sem dinheiro suficiente e sem proteção adequada.

A dívida não espera a chuva

O crédito adianta o dinheiro necessário para produzir. Sementes, fertilizantes, combustível e outras despesas precisam ser pagos antes de vender a safra. Quando os juros são altos, uma parte maior da receita futura já fica comprometida.

Se a produtividade cai ou o preço de venda decepciona, a margem de lucro diminui. Mas a dívida continua vencendo. O agricultor pode colher e, mesmo assim, não ter dinheiro para pagar as contas.

Precisamos analisar a inadimplência dentro dessa realidade. Cada situação é diferente e exige uma avaliação. Mas tratar qualquer dificuldade de pagamento como falta de responsabilidade impede entender como uma quebra de safra afeta quem financia a produção.

O risco também atinge os fornecedores e os bancos. As exigências aumentam, o crédito fica mais difícil e a falta de dinheiro pode comprometer o próximo plantio. Uma perda na lavoura acaba afetando mais de uma safra.

A mãe das assombrações

Na minha opinião, a mãe de todos esses sustos é a insegurança que começa justamente onde deveriam vir as soluções: na política e nas instituições.

Na política, a promessa de ajuda perde valor quando não vira orçamento, crédito disponível e proteção para quem produz. Os discursos dão conforto, mas na hora de plantar, o agricultor fica sozinho com as despesas.

No poder judiciário, decisões que mudam entendimentos ou criam dúvidas sobre as regras também podem gerar novos problemas fantasmas.

Quem investe em uma atividade que leva meses ou anos para dar retorno precisa saber quais regras orientam seu trabalho. A incerteza sobre o que será exigido amanhã pesa na decisão de investir hoje.

Exigir previsibilidade é cobrar responsabilidade de quem decide. Uma promessa não cumprida pode deixar o produtor sem proteção. Uma decisão judicial precisa ser bem fundamentada e pensar nas consequências.

Quando as instituições aumentam a incerteza, ela se junta ao risco do clima e ao custo do dinheiro. E essa conta acaba sendo paga pelo produtor.

Para afastar essas bruxas, é preciso política agrícola

Na minha visão, o erro é tratar cada problema separadamente. Seguro, financiamento e capacidade de pagamento fazem parte da mesma conta. Sem proteção, o risco de endividamento aumenta; com dívida acumulada, fica mais difícil investir e produzir.

Uma política agrícola séria precisa combinar seguro barato, previsibilidade de recursos e crédito com juros e prazos compatíveis com a atividade. Quando houver perdas comprovadas, a renegociação deve levar em conta a capacidade do produtor de se recuperar.

Essa discussão também interessa a quem compra comida. A fragilidade financeira no campo pode comprometer investimentos, empregos e o abastecimento. Os efeitos chegam ao comércio das cidades e à mesa das famílias.

No calendário, o Dia das Bruxas termina quando o mês de outubro acaba. No campo, esses sustos continuam enquanto o produtor precisar arriscar o patrimônio a cada safra, sem ter ferramentas suficientes para proteger seu trabalho.