Funcionária do governo americano chamou a medida de censura, mas especialistas dizem que ela garante eleições mais justas.
Os Estados Unidos chamaram de "censura" uma regra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proíbe as redes sociais de usar seus algoritmos para recomendar perfis de candidatos durante a campanha eleitoral. A única exceção é quando o candidato paga para impulsionar o conteúdo.
Esses algoritmos são os sistemas que decidem o que você vê no seu feed. Com essa regra, aprovada em fevereiro de 2024, o TSE quer evitar que as grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs, favoreçam algum candidato e desequilibrem a disputa.
- As redes sociais não podem mais sugerir automaticamente perfis de políticos durante as eleições.
- A regra vale para todas as plataformas, como X (antigo Twitter), Facebook, Instagram e outras.
- Se você já segue um candidato, a rede ainda pode mostrá-lo, mas não pode recomendar para quem não segue.
- Os candidatos ainda podem pagar para impulsionar seus conteúdos, mas com regras e limites.
- A medida foi criticada pelo governo dos EUA, que a chamou de censura, mas especialistas dizem que ela é importante para eleições justas.
Antes da regra entrar em vigor, no último domingo (16), a plataforma X, do bilionário Elon Musk, comunicou aos usuários que, a partir de agora, a recomendação de contas só vai acontecer se a pessoa já seguir o perfil do candidato.
A postagem da plataforma X foi republicada pela subsecretária de diplomacia pública do Departamento de Estado dos EUA, Sarah B. Rogers, que chamou a medida de "censura imposta pelo Brasil".
O TSE afirma que as regras são para "prevenção e mitigação de riscos à integridade do processo eleitoral". A assessoria do tribunal não quis comentar o assunto até o fechamento desta reportagem.
Especialistas criticam acusação
Especialistas em tecnologia, eleições e direito eleitoral consultados pela Agência Brasil disseram que a acusação do governo americano é infundada. Eles explicam que a regra não impede a publicação de conteúdo dos candidatos, apenas proíbe a recomendação automática.
O cientista político Alexandre Arns Gonzales, da Universidade de Brasília (UnB), explica que a medida busca garantir igualdade entre os candidatos. "Esse tipo de regra busca evitar que as plataformas tratem uns candidatos de forma diferente dos outros", disse.
Ele também lembra que a desinformação é um problema em eleições em todo o mundo, como no Brexit e no plebiscito da Colômbia, em 2016. A regra brasileira tenta evitar que os algoritmos aumentem esse problema.
O advogado Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral, diz que a decisão do TSE está de acordo com a Constituição. "Isso evita que as big techs favoreçam um candidato por interesse comercial", afirmou.
Conflito com o X
A crítica do governo americano vem depois de um histórico de conflitos entre a plataforma X e o Judiciário brasileiro. Em 2024, o X, de Elon Musk, descumpriu decisões do STF e foi multado. O caso chegou a ser usado pelo ex-presidente Donald Trump para justificar tarifas sobre o Brasil.
Impulsionamento pago
As regras do TSE permitem que os candidatos paguem para ter seus conteúdos recomendados nas redes sociais, mas com limites de valor. Esse impulsionamento é uma forma legal de propaganda eleitoral.
Gonzales, no entanto, alerta que não há garantia de que as plataformas cobrem o mesmo valor de todos os candidatos ou entreguem o conteúdo para o mesmo número de pessoas. "Isso pode criar desigualdade", disse.
Regras para inteligência artificial
As resoluções do TSE também limitam o uso de inteligência artificial (IA) nas eleições. Chatbots, por exemplo, não podem recomendar candidatos, partidos ou coligações, nem emitir opiniões sobre eles. A norma vale para todas as plataformas que usam IA em seus sistemas.


Rafa Neddermeyer/Agência Brasil


