02 de setembro de 2026

pt-br

Mais exames não significam mais prevenção, alerta médico

Saúde Prevenção 02/09/2026 14:19 Extra extra.globo.com

Fazer muitos exames sem orientação médica pode causar ansiedade, erros de diagnóstico e até procedimentos desnecessários. A prevenção eficaz depende de acompanhamento contínuo e cuidados personalizados.

Exames em excesso podem dar uma falsa sensação de segurança. A ideia de procurar qualquer problema antes que ele apareça parece boa, mas na medicina, fazer mais exames não significa necessariamente prevenir melhor.

A prevenção depende de vários fatores: idade, histórico familiar, hábitos, condições de saúde e riscos específicos. Sem isso, um exame pode apontar alterações sem importância, resultar em falsos positivos e levar a investigações desnecessárias.

  • Fazer exames sem indicação pode causar ansiedade e novos procedimentos.
  • Um resultado alterado nem sempre é doença.
  • Prevenção não é só fazer exames, inclui vacinas, alimentação e exercícios.
  • Rastreamento é para grupos específicos, com mais benefícios do que riscos.
  • Acompanhamento contínuo é essencial para entender mudanças ao longo do tempo.

Médico de Família, Roberto Rangel explica que a medicina preventiva não é uma lista fixa de exames. É necessário avaliar cada caso.

"A lógica da prevenção não é procurar tudo em todas as pessoas. É identificar o que precisa ser avaliado em cada fase da vida e de acordo com o risco de cada paciente. Isso exige critério, evidência e acompanhamento", afirma.

O assunto ganhou destaque em agosto, no Dia Nacional da Saúde, diante do aumento de doenças crônicas no Brasil. Dados do Vigitel mostram que diabetes passou de 5,5% (2006) para 12,9% (2024). Hipertensão subiu de 22,6% para 29,7%, e obesidade de 11,8% para 25,7%.

Esses números não significam apenas que mais pessoas adoeceram. Também refletem maior acesso ao diagnóstico e envelhecimento. Mas reforçam a importância de identificar riscos e acompanhar quem já tem doenças crônicas.

Prevenção, rastreamento e diagnóstico são diferentes

Prevenção são medidas para evitar doenças (vacinas, alimentação, atividade física, não fumar, etc). Rastreamento é fazer exames em pessoas sem sintomas, mas com risco aumentado, quando os benefícios superam os riscos. Diagnóstico precoce é investigar sinais ou sintomas cedo para iniciar o tratamento.

Uma pessoa sem sintomas, outra com alertas e outra já com doença crônica precisam de avaliações diferentes. Tratar todas igualmente pode levar a excesso ou falta de atenção.

As recomendações de rastreamento são baseadas em equilíbrio. No câncer de mama, por exemplo, a mamografia é recomendada para certas faixas etárias, sempre considerando riscos e benefícios.

O Instituto Nacional de Câncer alerta para falsos positivos (que geram ansiedade), falsos negativos (falsa segurança) e sobrediagnóstico (tratamentos desnecessários).

Quando excesso provoca danos

Um exame alterado não é doença. Valores de referência são faixas da população, mas devem ser interpretados com o histórico do paciente.

Quanto mais exames sem indicação, mais chance de achar alterações isoladas. Isso leva a repetição de exames, consultas e procedimentos invasivos.

O problema não é o exame, mas o uso sem contexto clínico.

"É natural que as pessoas procurem segurança, mas nenhum exame elimina todos os riscos. Um resultado normal não substitui o acompanhamento, e uma alteração isolada não confirma doença", diz Rangel.

Mas não significa adiar consultas ou ignorar sintomas. Mudanças persistentes devem ser avaliadas por um profissional. A diferença é fazer isso de forma orientada.

Doenças silenciosas exigem acompanhamento

Hipertensão e diabetes podem evoluir sem sintomas e causar complicações graves. Exames são importantes, mas precisam estar ligados à avaliação de riscos e à continuidade do cuidado.

Uma medida de pressão alta precisa de confirmação. Resultado de glicemia deve ser interpretado com histórico.

Após o diagnóstico, é preciso verificar resposta ao tratamento, uso de medicamentos, alimentação e atividade física. Acompanhar essas questões é fundamental.

"Prescrever é apenas uma parte do cuidado. Se a pessoa não entende o tratamento, não consegue o remédio ou não muda hábitos, o plano falha. O acompanhamento permite reconhecer barreiras e buscar alternativas", afirma.

O papel da atenção primária

A atenção primária é essencial para esse acompanhamento. Ela faz promoção da saúde, vacinação, prevenção, diagnóstico, tratamento e controle de doenças crônicas.

O Brasil tem 60,4 mil equipes de Saúde da Família, 15% mais que em 2022, e 277,4 mil agentes comunitários (dados de 2025).

Para Rangel, a atenção primária permite conhecer a trajetória do paciente, não apenas episódios isolados.

"Uma consulta ou exame oferece informações daquele momento. O acompanhamento permite comparar, perceber mudanças e organizar o cuidado ao longo do tempo. Prevenção depende dessa continuidade", conclui.