A especialista Gabi Sartori explica como projetos multissensoriais podem trazer bem-estar e melhorar nossa experiência no dia a dia.
Vivemos em um mundo cheio de telas e informações, mas a arquitetura e a neurociência mostram que a experiência em espaços físicos vai além de fórmulas prontas ou de estímulos visuais em excesso. Para a arquiteta Gabi Sartori, especialista em neuroarquitetura e cofundadora da NEUROARQ Academy, entender os ambientes é integrar cérebro, corpo, sentidos, memória e contexto, reconectando as pessoas à realidade com projetos multissensoriais coerentes.
A neurociência avançou muito e trouxe novas formas de entender como os ambientes nos afetam. Mas isso também trouxe o risco de virar "regra fixa": se uma cor causa uma reação, ela deveria funcionar igual em qualquer lugar.
- Neuroarquitetura combina ciência e design para criar espaços que melhoram a saúde e o bem-estar.
- Não é sobre encher o ambiente de estímulos, mas sim sobre equilíbrio e sentido.
- O cérebro depende do corpo e dos sentidos para interpretar o ambiente.
- Experiências reais, como brincar na infância, ficam gravadas no corpo.
- Projetos multissensoriais devem ser únicos, feitos para cada pessoa e situação.
Gabi Sartori explica que essa ideia simplifica um processo bem complexo. O cérebro não interpreta o ambiente sozinho. Ele precisa das informações que o corpo capta pelos sentidos, e essas são filtradas pela história e pelas condições de cada pessoa.
Não podemos reduzir a experiência humana só ao cérebro. Ele faz parte de um sistema complexo e precisa das informações que o corpo recebe do ambiente para entender o que estamos vivendo", afirma Gabi.
Para explicar essa integração, Gabi cita o filósofo Maurice Merleau-Ponty, que diz que percebemos o mundo com o corpo e os sentidos juntos. O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa também defende isso. No livro "Os olhos da pele", ele mostra que a arquitetura deve estar ligada ao corpo e ao movimento das pessoas.
Um projeto multissensorial não é um lugar cheio de cores, sons, texturas e cheiros. Não precisamos estimular tudo o tempo todo. Buscamos integração: estímulos que façam sentido com o contexto, com as pessoas e com o que elas precisam viver ali", explica.
Gabi conta uma história pessoal: quando viu o filho ganhar um pogobol, igual ao que usava na infância, ela sentiu o corpo se preparar para os movimentos. Mesmo depois de muitos anos, subiu no brinquedo e voltou a pular. A habilidade, a postura e as sensações estavam guardadas no corpo.
Uma crise corporal e sensorial
Pallasmaa também ajuda a entender um problema que já existia antes dos smartphones. Ele critica o excesso de importância dada à visão na arquitetura e sugere que a alienação, o isolamento e a solidão do mundo tecnológico podem estar ligados à diminuição dos sentidos.
A hiperconexão piorou isso. No livro "A geração ansiosa", o psicólogo Jonathan Haidt mostra como as crianças estão trocando brincadeiras por telas. Gabi diz que os adultos também sofrem, vivendo em dispositivos que dão informações e recompensas a todo momento.
Estamos vivendo uma crise de experiência corporal e sensorial. As crianças estão crescendo em frente às telas, não no mundo real. Quando não usamos o corpo e os sentidos, perdemos experiências mais ricas e completas", observa.
A solução não é encher os ambientes de cores, sons, cheiros e texturas. O excesso pode sobrecarregar o sistema nervoso, principalmente em pessoas sensíveis. Projetar de forma multissensorial é buscar equilíbrio e entender quais estímulos fazem sentido para cada pessoa e atividade.
Projetar exige integração
Para chegar a esse equilíbrio, Gabi defende uma abordagem que une neurociência, psicologia, biologia, filosofia e outras áreas. As pesquisas dão pistas, mas precisam ser interpretadas conforme o contexto e as necessidades de quem vai usar o espaço.
A inteligência artificial pode ajudar no projeto, mas não substitui o conhecimento sobre o cliente. Sem essa investigação, não dá para saber quais estímulos são bons para cada pessoa ou o que precisa ser ajustado no ambiente.
Não basta ter uma lista. Podemos ter um método que orienta, mas cada projeto é único. É preciso entender para quem estamos projetando e adaptar o processo a essa realidade", explica.
O ambiente como ferramenta de desabituação
Para Gabi, o projeto também pode tirar as pessoas do "piloto automático". Ela chama isso de desabituação: criar condições para que o usuário volte a notar o ambiente, reconheça sua presença e crie novas conexões com o espaço.
Isso pode acontecer com uma mudança de luz, uma textura que convida ao toque, um caminho que desacelera ou um espaço que incentiva encontros. O valor não está na quantidade de estímulos, mas em dar significado ao dia a dia.
Um ambiente humanizado não precisa impressionar o tempo todo. Ele precisa nos reconectar com o corpo, com os sentidos, com outras pessoas e com a nossa história. Quando o projeto consegue isso, deixa de ser cenário e vira um lugar vivido", conclui Gabi.


Gabi Sartori


